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Maio de 2017

 

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(Re)leituras

A curiosidade, instinto de complexidade infinita, leva por um lado a escutar às portas e por outro a descobrir a América; mas estes dois impulsos, tão diferentes em dignidade e resultados, brotam ambos de um fundo intrinsecamente precioso, a atividade do espírito. (Eça de Queirós)

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Nuno Camarneiro,  "No meu peito não cabem pássaros"

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Tiago Rodrigues, Gonçalo Waddington e Isabel Abreu são os rostos de um projeto que dá protagonismo aos censores para os retirar das sombras onde se ocultaram durante anos e mostrar o pensamento que justificou o corte e proibição de tantas peças de teatro durante o período do Estado Novo. Construída a partir da colagem de frases dos censores, “Três dedos abaixo do joelho” é um retrato bem humorado e cáustico da censura em Portugal, que percorre as salas de espetáculo do país. A sua riqueza resulta, ironicamente, da importância que a ditadura lhe dava: “Politicamente, só existe aquilo que o público sabe que existe”. O teatro era perigoso pelo forte potencial de contágio que possuía e possui.
Uma peça que é, por isso, uma homenagem a todos quantos sofreram a ação dessa censura e cujos textos ecoam nesta peça: Sttau Monteiro, Bernardo Santareno, Brecht são alguns desses nomes. Bragança recebeu-a calorosamente no dia 2 de Fevereiro.

Outra Presença: Como surgiu a ideia desta peça?
Tiago Rodrigues: No jornal Público, a certa altura, em 2005, saiu a notícia de que o arquivo da censura dos textos dramáticos, escritos durante a ditadura, estava disponível na torre do Tombo. Ao fim de trinta e tal anos, tinha sido tornado público e eu resolvi visitar, por curiosidade. Mas, quando comecei a ler, sobretudo os relatórios dos censores, aquilo que diziam sobre o teatro, achei interessante fazer uma peça a partir daquele arquivo. Não sabia ainda muito bem como, mas sabia que havia ali muito material. O que me interessava era o pensamento por trás das afirmações, das decisões, dos relatórios. Foi logo aí que surgiu a ideia, ainda que tenha demorado algum tempo a concretizá-la.


OP: O título surgiu a partir de uma frase utilizada pelos censores. Por que razão escolheu esta frase e não outra?
TR: Três dedos abaixo do joelho era a medida da saia que as atrizes podiam utilizar. Escolhi essa frase porque associa-se censura no teatro habitualmente às restrições linguísticas e afirmações políticas. Na realidade, aquilo que eu percebi do arquivo foi que a esmagadora maioria da censura era moral. Não quer dizer que a censura moral não seja política também, mas não visava questões ideológicas, mas sim questões como a liberdade, neste caso, da mulher, e o direito à livre expressão, no que tocava a poder criticar e dar uma opinião. Achei que este título representava, por um lado, a censura moral e sexual e, por outro, uma censura específica do teatro, tinha a ver com o figurino da atriz e mostrava uma restrição extremamente precisa e absurda. Porquê três e não quatro dedos? Servia para quantificar o que não podia ser dito nem que fosse de forma absurda. Achei, por isso, que era uma das expressões que podia dar origem ao título da peça, como muitas outras usadas pelos censores.


OP: Como foi a experiência de mergulhar nesses arquivos? O que sentiu? A quantidade enorme de documentos não o desmotivou?
TR: Todas as obras artísticas, se nós formos sérios, são trabalhosas e há momentos em que nos apetece desistir. Isso acontece quer tenham ou não pesquisa documental. Nesta peça é mais notório esse trabalho, porque é evidenciada toda a documentação envolvida. Em qualquer espetáculo, o trabalho é proporcional ao prazer e este deu-me prazer suficiente para continuar a pesquisa, o que resultou em nove meses em viagens à Torre do Tombo. Esta experiência foi para mim uma descoberta. De certa forma, permitiu-me conhecer um lado da história do meu país num setor específico, o teatro, e descobrir muitas coisas que não sabia, o que me surpreendeu e fascinou. Tudo o que é representado nesta peça era revelado apenas nos relatórios enviados ao inspetor-chefe. Aos artistas era apenas dada a decisão final, logo eles desconheciam os argumentos usados para que a sua peça fosse cortada ou impedida de subir ao palco.


OP: Uma das perguntas que os censores colocavam era “Qual é a verdadeira intenção do autor?”. E, nesta peça, qual é a verdadeira intenção do seu autor?
TR: Há várias intenções nesta peça. Por um lado, pretende-se pegar num discurso representativo de uma época bem conhecida do povo português e mostrar esse discurso a esse mesmo povo. Embora sejam discursos de outros tempos, relacionam-se com a situação atual – isto é uma intenção, de certo modo, provocatória. Quando peguei nestes documentos associei-os imediatamente à atualidade.
Por outro lado, é também uma homenagem aos censurados pelos riscos que correram sem ceder, arriscando as suas carreiras, os seus empregos, e a própria vida em prol de umas meras palavras. Só de pensar nisso, sinto uma enorme dívida de gratidão. Até posso não concordar com o seu ponto de vista, mas eu tenho o direito de discordar e eles têm o direito de ter essas ideias. Eles mostraram isso através da sua arte. Carmen Dolores, por exemplo, só soube ao assistir a esta peça os motivos porque algumas propostas dramáticas suas foram recusadas.
Além de tudo isto, há uma terceira razão, talvez não a mais nobre, mas que foi aquela que mais me motivou a continuar: há aqui implícita uma vingança, que é transformar os censores em dramaturgos, passando aqueles que impediam a liberdade do teatro a alguém que faz esse teatro acontecer num palco. Apesar de tudo, no momento em que comecei a produzir teatro, estas razões perdem a sua importância, e ganha mais relevo o facto de ter e fazer parte duma equipa que acredita no trabalho que está a ser feito.


OP: Qual acha que é a função do teatro hoje em dia? Continua a ser uma “arma” perigosa como era considerada pela censura?
Gonçalo Waddington (GW): Eu acho que nós temos uma obrigação de arriscar, nem que seja perigoso para nós. Com isto quero dizer que é um risco de criação. Eu olho à minha volta e acho que há razões para sermos políticos de alguma forma. Quando eu digo político, não me refiro a política no sentido literal, mas sim ter uma opinião formada. O próprio facto de fazer teatro hoje pode ser considerado politicamente tendencioso...


OP: E isso pode ser considerado censura?
GW: Claro que sim! A censura hoje em dia é muito mais perigosa, pois não é tão visível como nos tempos da ditadura. O facto de hoje a sala ter estado cheia leva-nos a concluir que continua a haver razões para fazer teatro. O simples facto de o teatro tentar subsistir com as condições que hoje existem e com todas as dificuldades que a cultura atravessa já é um ato de rebeldia. Neste aspeto é um perigo, pois o teatro tem poder suficiente para criticar e conseguir passar esta crítica ao público.


OP: Os países têm muitas vezes dificuldade em ultrapassar épocas negras da sua história. Nós também temos uma dessas épocas e a censura existente no teatro é prova disso. Acha que o nosso país já conseguiu ultrapassar este período da sua história?
GW: Generalizar é complicado. Acho que tem a ver com a capacidade de compreensão de cada um, de acordo com a informação que está à sua disposição. Há muita gente que não fazia ideia da censura a que a cultura estava sujeita. Tinham ouvido falar da censura, mas era algo abstrato. Não a associavam a censores. Pelo menos nós, na nossa área, no nosso círculo de amigos. As pessoas sabem, mas é difícil avaliar, pois não há muita informação. Temos dois grandes traumas – a ditadura e, associada a ela, a guerra colonial. Não tivemos um processo de debate e de reconciliação. Tivemos aquilo que sempre se fez e se continua a fazer: depois da morte de Salazar e da ditadura considerou-se a situação resolvida. Talvez essa falta de reflexão explique a situação atual: Portugal é um país de impunidade total, sabe-se que a corrupção e os corruptos existem, mas continuam soltos.


OP - O que falhou então?
GW - O que sempre falhou na democracia (e em 2014 ela faz 40 anos, logo não podemos continuar a justificar o presente referindo que o problema reside nas marcas que a ditadura deixou) é que ainda não colocámos a informação toda na mesa.
Por isso, é que é muito importante pesquisar na Torre do Tombo e encontrar entre esse passado milhares de peças que não chegaram a ser representadas.
TR - Houve uma equipa de duas ou três pessoas que analisou 9000 documentos. Os outros dois terços de arquivos que contêm documentos censurados estão nas mesmas caixas no Palácio Foz, onde funcionava o SNI - Sistema Nacional de Informação - nunca foram abertas e têm quase cinquenta anos. Não se investe no estudo da nossa história recente.
Acredito que muitos dos problemas do país resultam do desconhecimento da nossa história. Mesmo que quiséssemos saber, e não estamos programados para querer, pois tudo nos empurra para casa, para a televisão e para o comando, para o mínimo de conhecimento e para o máximo de entretenimento, não há interesse político em que isso seja falado. Nunca houve um processo organizado que visasse a compilação e organização da informação. Veja-se o caso de África do Sul, um dia depois da libertação de Mandela, os Tribunais de Reconciliação iniciaram o processo.


OP: Na peça é referido que o teatro é mais perigoso que o cinema. É mesmo assim?
TR: O teatro permite a interação com o público, um texto no palco é imediatamente uma mensagem. Hoje, por exemplo, houve pessoas que intervieram e os atores reagiram a essa intervenções. O cinema tem outro poder, conduz as pessoas para outra dimensão.


OP: Acha que o teatro imita a vida ou é a vida que imita o teatro?
TR: O teatro baseia-se na vida, mas para poder acontecer apela à imaginação.


OP: Acha que os portugueses têm bagagem cultural para compreender a mensagem do teatro como diziam os censores?
GW: O português não tem bagagem suficiente, ponto. Os censores escudavam-se no público como os programadores de televisão também o fazem. “Eu não deixo os meus filhos verem a casa dos segredos, mas é o que os portugueses querem.” Argumentam que é o programa mais visto, mas não dizem que isso acontece porque é aquele que passa em horário nobre e no qual é feito um maior investimento.
Isabel Abreu (IA) - Parece que não há uma verdadeira vontade de dar às pessoas a opção de escolha. O público educa-se e os portugueses não são exceção. Isto implica muito trabalho e esforço, que se inicia no âmbito escolar. Não acredito que o povo português seja diferente. Temos é que apostar. Muitas pessoas defendem que é uma tarefa impossível, e com esta desculpa evitam envolver-se. É esta atitude conservadora típica do nosso país que não fomenta a mudança.
TR: Está na constituição portuguesa que o governo tem a obrigação de apoiar a cultura, em todos os domínios. São princípios básicos da democracia ocidental que não são respeitados pelos nossos políticos. O que se vê hoje em dia é uma sobreposição de valores económicos a valores culturais e morais. Não basta incutir estes princípios, é preciso viver de acordo com eles e respeitá-los.


OP: Acha que o objectivo da arte se perdeu e que esta é vista apenas como um fundo de lucros?
IA - A arte não tem muita importância para a maioria das pessoas. Estou convencida de que o desaparecimento desta não iria interferir na vida da maior parte da população. É importante não esquecer que nem sempre foi assim. Até há pouco tempo existiam cinemas ambulantes e inúmeras companhias de teatro amador e as pessoas apoiavam estas iniciativas. Uma das iniciativas que mais sucesso tem tido é o Plano Nacional de Leitura que me parece tem tido resultados positivos na educação dos alunos para a leitura.
TR: No entanto, é de salientar que não há exigência de hábitos de leitura, não há exigência de hábitos culturais.


OP: Normalmente, a mudança do vestuário e dos elementos cénicos é feita atrás do pano. Qual é a intenção nesta peça ao fazer esta mudança à vista do público?
TR: Por um lado, para criar proximidade. No entanto, não há uma verdadeira intenção definida. De certa forma, cria transparência, mostra o que se pensa e o que acontece. É um espectáculo que mistura num só espaço os bastidores e o palco, o que é visto e o que não é visto, não tanto para mostrar os bastidores, mas mais para mexer com a percepção e a forma como as pessoas normalmente veem as coisas.
GW: Não há uma mensagem que esteja a ser veiculada. Não é o que vemos, o que ouvimos, mas sim o que pensamos que estamos a ver e a ouvir. Há uma vontade de levar o público a reflectir sobre isso.
IA: A peça acaba por ser a nossa própria interpretação dos relatórios mostrados, que poderiam ter várias interpretações.
GW: Os figurinos são peças do Teatro Nacional, acabando por contar um pouco da história do teatro. Não de uma forma organizada nem pedagógica, de certa forma até caótica, tornando-se numa espécie de “montanha” de desperdícios de outras peças da história do Teatro Português.


OP: Novos projectos?
TR: Imensos! Vou estrear uma nova peça, em Lisboa, chamada “Entrelinhas”, escrita por mim, um monólogo. Está também no ar a série “Odisseia”no qual todos nós (os 3 presentes) participamos.


OP: Onde gostariam de ter estado no 25 de Abril?
TR: No largo do Carmo, com uma espingarda na mão, do lado do Salgueiro Maia.

A primeira fase do Concurso Nacional de Leitura, que se realizou no dia 9 de Janeiro de 2013, pelas 14:30 na Biblioteca da Escola Secundária Abade Baçal, foi ganha por Marta Genésio, do 8ºA, no escalão do 3ºciclo e por Vanessa Lameiras, do 12ºC, relativamente ao ensino secundário.

Atualmente, todos nós ouvimos falar de crise, contudo convém entender o seu verdadeiro significado. A crise é um conceito utilizado em vários ramos do saber, nomeadamente, na sociologia, na política, na economia, na medicina, entre outros. Mas a crise de que vamos falar pode ser definida, genericamente, como uma fase de perdas a vários níveis, verificando-se um profundo desequilíbrio económico, social e político.

 

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