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Há já bom tempo que o malfadado bichinho nos prendeu a todos com algo muito mais torturante e aterrador que qualquer escola ou trabalho: as nossas famílias. Segundo os resultados de um inquérito do Observatório de Políticas de Educação e Formação, quase dois terços dos alunos em quarentena querem regressar à escola. Sendo eu um desses alunos que já sente a falta dessa camaradagem estudantil e do simples facto de poder estar numa sala infestada de gente sem a possibilidade de ir desta para melhor, aqui está o resultado de demasiado tempo livre: um testemunho para a civilização futura ou para a anarquia que daqui resultar. Das duas venha o vírus e escolha.

Nos primeiros dias não houve grande problema. As minhas prioridades eram sobretudo rebentar os tímpanos com “School’s Out” e “Another Brick In The Wall”. No entanto, passado o contentamento inicial, atingiu-me, bem como a todos, aquela velha máxima da humanidade, talvez muito bem ilustrada pelo senhor Mark Twain em “Aventuras de Tom Sawyer, um livro que li durante a quarentena e que, ironicamente, trata da liberdade e inocência da infância: “trabalho consiste em tudo que se é obrigado a fazer e [...] prazer consiste naquilo que se não é obrigado a fazer”. Traduzindo para linguagem de estado de calamidade: ficar em casa porque queremos é ótimo, mas ficar em casa por obrigação e com teletrabalho é incrivelmente “chato”. Adicione-se a escola online e a telescola, mais o facto dos aparelhos eletrónicos passarem de geringonça corruptora de Satanás a bênção necessária à aprendizagem e as mais básicas leis do ensino ficam viradas do avesso. Não sei se só sou eu, mas sinto que há algo de fundamentalmente errado sobre ter aula de educação física através da TV. Uns dizem que avançamos dez anos. Eu digo que quando o pessoal sair de novo da caverna vai precisar de uma boa cura para a cegueira e para a úlcera craniana. Enfim, mais trabalho para os médicos. 

Mudando de assunto, vamos falar sobre símbolos. 25 de abril, um cravo, revolução, Che Guevara, vergonha, André Ventura. Presos em casa, arco íris. Algo que estamos impossibilitados de ver é o que pintamos em folhas A2 para mostrar à vizinhança. Tudo bem, a memória dos homens é fraca. Depois vêm as palavras… “Vai ficar tudo bem”. Como pessimista inveterado com pele de otimista, que acredita na condenação de tudo que rasteja, respira ou mexe, permitam-me discordar. Primeiramente, porque se até a Maria Helena falhou na previsão das benfeitorias do ano de 2020, não vamos nós, simples mortais, pormo-nos a adivinhar o futuro, correríamos o risco de acertar. De seguida, porque a economia mundial bateu fundo, e do petróleo nem se fala, estranho para um líquido habituado a tais profundezas. Finalmente, porque embora aqui a sociedade tenha a barriga cheia de cuidados médicos acessíveis, os nossos amigos dos PALOP e afins não têm tanta sorte... Há algo de profundamente orwelliano na citação como um todo...

Como os telejornais já começam a enjoar, a ponto de uma pessoa ficar paranóica se for espetadora assídua do noticiário, tenho prestado muita atenção a rumores e obtido informação de sites absolutamente fidedignos. Graças a estas fontes escorreitas, consegui identificar três possíveis responsáveis pela pandemia:

  • Mr. Trump, que, para além de sugerir o uso de fairy platinum ou sonasol como vacina, não deve apreciar muito arroz xau xau.
  • O governo da República Popular da China. Têm de começar a dar duas voltas à chave nas portas dos laboratórios.
  • A ativista sueca Greta Thunberg. Pensem, a poluição atmosférica na China e no mundo reduziu drasticamente. Faz todo o sentido.

Em jeito de conclusão, se tivesse de definir estes últimos meses com apenas uma palavra, essa palavra seria “idiota”. Não o idiota de estúpido ou lorpa, mas antes de patusco, pândego ou ridículo. Ainda bem que pomos os olhos no futuro, se bem que o futuro consista no BB2020, com as patetices costumais e os aneurismas do Cláudio Ramos, nas fake news do senhor penteado à faisão chinês, na economia estuporada e na morte de milhares de pessoas. Bem, no sopé da montanha a única possibilidade é subir.

 

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